Domingos Vaz Chaves nasceu a 3 de Agosto de 1954, na aldeia barrosã de Gralhas, concelho de Montalegre — território de montanha cuja dureza moldou gerações habituadas ao trabalho árduo, à solidariedade comunitária e a um profundo sentido de pertença. Filho de José Fernandes Chaves e Teresa Vaz Chaves, foi criado pelos avós maternos até aos sete anos, experiência que lhe transmitiu disciplina, resiliência e um agudo sentido de responsabilidade, valores que atravessariam toda a sua vida pública, cívica e intelectual.

1. Infância, Juventude e Formação Inicial

Frequentou a instrução primária em Gralhas até à 2.ª classe. Posteriormente, deslocou-se para Lisboa, onde concluiu o ensino primário e ingressou no Liceu Nacional de Gil Vicente. O confronto entre a ruralidade barrosã e a vida urbana da capital ampliou horizontes culturais e políticos, integrando-o em contextos sociais que moldariam a sua trajectória.

Em Agosto de 1968, iniciou a sua actividade profissional na Evicar, representante formal da DAF em Portugal. Contudo, seria a militância política a marcar decisivamente o seu percurso: em 1969, ainda adolescente, aderiu ao Partido Comunista Português, actuando em clandestinidade sob o pseudónimo “Xavier”, recorrendo a identidade fictícia de Mário Xavier de Freitas para escapar à vigilância da PIDE/DGS.

A repressão política não tardou: em 1970, após ter sido violentamente espancado pela PIDE, agressão que resultou em 10 dias de incapacidade física, viu-se obrigado a abandonar a capital. Regressou então temporariamente a Gralhas, onde prosseguiu os estudos no Colégio de Montalegre, período em que se manteve em semiclandestinidade para escapar às perseguições da polícia política. Regressado a a Lisboa, viria aí a concluir o 5.º ano do ensino secundário (actual 9.º) exercendo em paralelo várias actividades no sector privado para garantir autonomia e mitigar os riscos de detenção.

Participou activamente nos movimentos de mobilização e resistência que antecederam o 25 de Abril de 1974, estando presente no assalto à sede da PIDE/DGS, episódio emblemático da queda da ditadura. O seu compromisso com a luta antifascista encontra-se hoje reconhecido no Museu República e Resistência, onde o seu nome integra o acervo dedicado aos resistentes contra o Estado Novo. Manteve a militância comunista até NOvembro de 1994.

2. Vida Académica e Produção Intelectual

Em 1989, retomou a vida académica e ingressou, como bolseiro, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, após concluir a Prova Geral de Acesso com 19,2 valores. O interesse pela teoria política, pela ética pública e pelos estudos sobre o Poder conduziram-no à realização do Mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, concluído em 2016 com a dissertação O PODER – Estudo do Conceito Segundo a Escala de Valores, orientada pelos Professores António Carneiro Chaves (natural de Negrões) e Alberto Arons de Carvalho.

É autor de uma obra vasta e multidisciplinar, que abrange história institucional, antropologia cultural, direitos fundamentais, policiamento, memória política e identidade barrosã. Entre os títulos publicados destacam-se:

  • História da Polícia em Portugal – Formas de Justiça e Policiamento
  • Moralidade e Ética Policial
  • Estórias e Combates de uma Vida
  • Humberto Delgado – Um Crime sem Castigo
  • A Desertificação nas Terras de Barroso
  • O Sagrado no Imaginário Barrosão
  • O Último Enforcado em Montalegre
  • Direitos Fundamentais e dos Cidadãos
  • Relatos e Crimes do Arco da Velha
  • Gralhas – Minha Terra, Minha Gente
  • Terras de Barroso – Origens e Características de uma Região
  • CHEGA E ANDRÉ VENTURA - Anatomia do Ressentimento Organizado

A sua obra mais recente e emblemática, História Viva do Concelho de Montalegre (Âncora Editora, 420 páginas), constitui um marco fundamental na historiografia contemporânea do Barroso.

3. Sindicalismo, Polícia e Conflito Social

Figura absolutamente central no sindicalismo policial português, foi fundador da ASPP/PSP e posteriormente do SPP/PSP, organizações que enfrentaram resistências internas num período de lenta democratização da PSP.

O seu papel na chamada “Batalha de Lisboa”, a 21 de Abril de 1989, permanece como um dos momentos mais marcantes da luta pelos direitos laborais e pela dignidade profissional dos agentes de polícia em Portugal.

Em 1992, foi eleito para o Conselho Superior de Polícia, e em 1996 para o Conselho Superior de Justiça, cargos de elevado prestígio e responsabilidade institucional.

Em 1999, no Parlamento Europeu, denunciou formalmente violações de direitos sindicais e constitucionais, dando expressão internacional a conflitos estruturais persistentes no pós-25 de Abril.

4. Docência, Investigação e Identidade Barrosã

Foi docente da Universidade Lusíada, lecionando áreas de natureza jurídica, ética e política. A par da docência, manteve sempre forte ligação ao território de origem. A cultura de montanha, a desertificação, a memória comunitária, os sistemas de parentesco, a religiosidade popular e a resistência cultural das Terras de Barroso constituem os eixos centrais da sua investigação.

É hoje reconhecido como um dos mais consistentes intérpretes da identidade barrosã no século XXI.

 

5. Condecorações e Reconhecimento Oficial

Ao longo da carreira, recebeu diversas distinções oficiais, entre as quais:

  • Medalha de Ouro
  • Medalha de Prata
  • Medalha de Bronze
  • Medalhas de 1, 2 e 3 estrelas

Foi ainda oficialmente condecorado pelo Estado português em 1983, 1985, 1992 e 2011, reconhecendo contributos profissionais, institucionais e cívicos.

6. Reconhecimento Académico e Papel Cívico Actual

Em Outubro de 2025, apadrinhado pelo historiador e decano do jornalismo português João Barroso da Fonte, tornou-se Membro da Academia de Letras de Trás-os-Montes. É hoje académico, escritor e investigador da identidade barrosã, sendo considerado uma das vozes mais firmes do Alto Tâmega na defesa da democracia, do Estado de Direito, dos direitos fundamentais e da dignidade das Terras de Barroso.

7. Síntese do Legado

A vida de Domingos Vaz Chaves articula clandestinidade, resistência antifascista, democratização institucional, combate sindical, investigação científica, docência universitária e defesa da memória e identidade do Barroso. O seu nome permanece inscrito — literal e simbolicamente — na história da resistência ao Estado Novo, nas lutas pela dignidade profissional, na investigação antropológica e na afirmação cultural de um território tantas vezes esquecido.